Vai se vingar? Então prepare dois túmulos!

Há muito tempo que eu vinha refletindo, sem partilhar com ninguém, que na maioria dos relacionamentos há momentos em que a vingança prevalece sobre o amor. É incrível: quantas pessoas gastam uma vida toda, ou grande parte dela, apenas para se vingar de uma ou mais pessoas.

Na novela “O outro lado do Paraíso”, Clara, depois de ser cruelmente caluniada, mentirosamente acusada e condenada, faz da vingança a razão do seu viver. Ela quer e investe quase todo o seu tempo para vingar-se do juiz, do delegado, do psiquiatra e da ex-sogra. E para quem a maioria dos telespectadores torce? Pela Clara, é claro! Querem se vingar junto com ela. (Por sinal, será que a Rede Globo não dará os créditos a Alexandre Dumas, de quem a emissora “copiou” a história do Conde de Monte Cristo?).

Já na novena “Pega-Pega”, a pouco encerrada, Madalena e Cristóvão perdoam Sabine por ter sequestrado o filho deles, Dom, quando ainda criança. Quantos telespectadores torceram e vibraram com este perdão?

O poeta e contista Edgar Allan Poe (1809 – 1847), no conto “O barril de amontilhado”, narra a história de uma vingança terrível. No início da narração, afirma: “Um insulto permanece sem troco quando os efeitos da vingança atingem o próprio vingador, ou quando este falha em tornar-se conhecido como tal daquele que o insultou” (Os melhores contos de Edgar Allan Poe, Círculo do Livro, São Paulo, 1984, p.39).

Poe erra ao afirmar que a vingança pode não atingir o vingador. Que prazer sentirá Clara ao vingar-se? A angústia e o vazio. Que prazer tiveram Madalena e Cristóvão ao não vingar-se? A alegria e a paz. Por isso, quem se vinga é tão castigado quanto a pessoa de quem se vingou. Ninguém escapa incólume pela vingança.

No título desta reflexão cito livremente um pensamento de quem não conheço o autor, mas que para mim é uma verdade e tanto: quem pretende se vingar prepare dois túmulos, visto que vingador e vingado serão ambos enterrados. Ou seja, é lucro perdoar; é prejuízo se vingar.

Lembremos do que diz a Igreja: todos temos direito à justiça, nunca à vingança. Esta não passa de violência sobreposta a outra violência (a sofrida). Vingar-se é uma furada e tanto…